15.4.14

João Cabral de Melo Neto: "A rima..."






A rima é algo necessário. Valéry me convenceu de que, para se criar algo, é necessário um esforço. Um obstáculo diante do ser o obriga a muito mais esforço e faz com que ele atinja o seu extremo. Para mim, a rima é uma necessidade que precisa se impor.



MELO NETO, João Cabral de. In: ATHAYDE, Félix de. Ideias fixas de João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: FBN - UMC - Nova Fronteira, 1998.

13.4.14

Antonio Cicero: "Desejo"





Desejo

Só o desejo não passa
e só deseja o que passa
e passo meu tempo inteiro
enfrentando um só problema:
ao menos no meu poema
agarrar o passageiro.



CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

10.4.14

Alex Varella: "A invenção do nome"




 A invenção do nome 
 
 
 
Quando criança, achava bonito. Tinha certa imponência.
 
Alex Vítor Pessoa Varella, o meu nome.
 
“Alex”, diziam em casa, era homenagem ao doutor Alexis Carrel,  médico russo
 
 ( ou seria francês?), autor de “O homem, Esse Desconhecido”.
 
 Para os incrédulos, tínhamos um livro do tal russo, na biblioteca de meu pai.
 
Alex era nome raro de botar numa criança e requeria justificação.
 
“Vítor”, não havia dúvidas, era uma escolha puramente sonora de meu pai orador
 
e compositor de sonetos, que promovia torneios literários e saraus em casa,
 
misturados a sessões espíritas de desmaterialização.
 
Como “Pessoa”, o poeta rosa-cruz, meu mais notável antecessor,
 
espero que também me façam um busto ( que já estou a merecer! ) como aquele da Brasileira, no Chiado, em Lisboa, mas diferentemente daquele, que mude de lugar a cada dia, como a identidade do parente poeta.
 
Quanto à herança do romântico, o Fagundes (Varella),
 
Nem morrer de tuberculose, nem acabar nome de rua em Niterói!
 
Os deuses vêm me visitar. E eu os recebo a beira mar.
 
 

VARELLA, Alex. "A invenção do nome". Inédito.

7.4.14

William Shakespeare: "Sonnet 56" / "Soneto 56": trad. Adriano Nunes





Sonnet 56

Sweet love, renew thy force; be it not said
Thy edge should blunter be than appetite,
Which but today by feeding is allay'd,
Tomorrow sharpen'd in his former might:
So, love, be thou; although today thou fill
Thy hungry eyes even till they wink with fullness,
Tomorrow see again, and do not kill
The spirit of love with a perpetual dullness.
Let this sad interim like the ocean be
Which parts the shore, where two contracted new
Come daily to the banks, that, when they see
Return of love, more blest may be the view;
Else call it winter, which being full of care
Makes summer's welcome thrice more wish'd, more rare.


SHAKESPEARE, William. The sonnets and A Lover's Complaint. Edited by John Kerrigan. London: Penguin Classics, 2009.



Soneto 56

Doce amor, renova-te; que não seja dito
Ser mais cego teu gume que teu apetite,
Que está saciado por ter hoje comido,
Mas amanhã co' antiga força está em riste.
Assim, amor, sê tu; embora bem se fartem
A piscar, plenos, teus olhares esfaimados,
Amanhã enxerguem novamente, e não matem
O espírito do amor com um perpétuo enfado.
Deixa este triste ínterim como o mar ser
Que separa a praia, onde um nubente par
Vem à orla diariamente, e por ver
O retorno do amor, mais ditoso é o olhar.
Ou então o inverno, que cheio de cuidado
Faz o verão três vezes mais raro e almejado.


Tradução de Adriano Nunes

6.4.14

Nora Rónai: trecho de entrevista





Amigas minhas foram abençoadas pelo dom da fé. Eu fui abençoada pelo dom da dúvida. Sempre achei essa história de Deus muito mal contada.



RÓNAI, Cora. "Braçadas de uma 'brasileira de coração'". Entrevista. O Globo, caderno Rio, seção "Perfil". Rio de Janeiro, 6 de abril de 2014.

5.4.14

Carlos Drummond de Andrade: "As rosas do tempo"




As rosas do tempo


Admirável espírito dos moços,
a vida te pertence. Os alvoroços,

as iras e entusiasmos que cultivas
são as rosas do tempo, inquietas, vivas.

Erra e procura e sofre e indaga e ama,
que nas cinzas do amor perdura a flama.




ANDRADE, Carlos Drummond de. “Viola de bolso”. In:_____. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.


3.4.14

William Shakepeare: "Sonnet LV" / "Soneto LV": trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos






Sonnet LV


Not marble, nor the gilded monuments

Of princes, shall outlive this powerful rime;

But you shall shine more bright in these contents

Than unswept stone, besmear’d with sluttish time.

When wasteful war shall statues overturn,

And broils root out the work of masonry,

Nor Mars his sword nor war’s quick fire shall burn

The living record of your memory.

’Gainst death and all-oblivious enmity

Shall you pace forth; your praise shall still find room

Even in the eyes of all posterity

That wear this world out to the ending doom.

  So, till the judgment that yourself arise,

  You live in this, and dwell in lovers’ eyes.





Soneto LV


De mármore não sei, nem de áureos monumentos

Que sobrevivam ao meu canto poderoso:

O tempo mancha a pedra, enquanto em meus acentos

Tu sempre ostentarás um brilho vigoroso.

Quando estátuas a guerra infrene derruir

E as próprias construções das bases arrancar,

Não poderão espada ou fogo destruir

Este arquivo imortal que te há de relembrar.

Indiferente a morte e a olvido hás de viver,

E encontrará guarida o teu louvor supremo

No olhar das gerações que se hão de suceder

Até que o mundo atinja o seu momento extremo.

   Assim, até o juízo em que despertarás,
   Em meu verso e no olhar dos que amam viverás.




SHAKESPEARE, William. Sonetos. Org. e trad. De Péricles Eugénio da Silva Ramos. São Paulo: Hedra, 2008.