27.12.09
Abu Muhammad Ibn Sara as-Santarini: "Muchacho de ojos azules": original árabe; tradução castelhana por Teresa Garulo
O poeta andaluz Abu Muhammad Ibn Sara, chamado "as Santarini" por ter nascido em Santarén, viveu entre os séculos XI e XII. Como não leio em árabe, somente conheço sua poesia na -- bela -- tradução castelhana de Teresa Garulo. Eis um exemplo dela:
Muchacho de ojos azules
Es un joven esbelto, sobre cuya túnica
veo alzarse una luna
brillando en un cielo de perfecciones.
Ha sentenciado a nuestros corazones
la recta lanza de su cuerpo
donde reluce el hierro de sus ojos azules.
Rapaz de olhos azuis
É um jovem esbelto, sobre cuja túnica
vejo alçar-se uma lua
brilhando num céu de perfeições.
Sentenciou nossos corações
à reta lança de seu corpo
onde reluz o ferro de seus olhos azuis.
IBN SARA as-SANTARINI, Abu Muhammad. Poemas del fuego y otras casidas. Recopilación, edición, traducción y estudio de Teresa Garulo. Madrid: Hiperión, 2001.
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25.12.09
Luís de Camões: "Aquela cativa"
Aquela cativa
Endechas a ũa cativa com quem andava de amores na Índia, chamada Bárbora.
Aquela cativa
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que pera meus olhos
fosse mais fermosa.
Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.
Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
Mas bárbora não.
Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo.
E pois nela vivo,
é força que viva.
CAMÕES, Luís de. Lírica completa. Vol.1. Prefácio e notas de Maria de Lurdes Saraiva. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1980.
Endechas a ũa cativa com quem andava de amores na Índia, chamada Bárbora.
Aquela cativa
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que pera meus olhos
fosse mais fermosa.
Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.
Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
Mas bárbora não.
Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo.
E pois nela vivo,
é força que viva.
CAMÕES, Luís de. Lírica completa. Vol.1. Prefácio e notas de Maria de Lurdes Saraiva. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1980.
23.12.09
W.H. Auden: "As I walked out one evening" / "Ao descer a rua Bristol: tradução de Nelson Ascher
Ainda sobre o tempo (tema bem a propósito no fim do ano), uma belíssima balada de W.H. Auden, com a tradução -- que é um admirável tour de force -- de Nelson Ascher:
Ao descer a rua Bristol
uma tarde, eu vi os demais
que eram como, antes da ceifa,
os já maduros trigais.
E ouvi junto ao rio, debaixo
da ponte da ferrovia,
um namorado cantando
como ele sempre amaria:
“Vou te amar, meu bem, até
que a África se junte à China,
que o rio salte a montanha
e salmões cantem na esquina.
Vou te amar até que o oceano
seque pendurado ao léu,
até que as Plêiades grasnem
quem nem os gansos no céu.
Anos fujam como lebres,
pois, nos braços, eu estreito
a Flor de Todas as Eras
e, entre amores, o perfeito.”
Mas, nas ruas, mil relógios
badalaram com alarde:
“Não confies nunca no Tempo,
Ele triunfa cedo ou tarde.
Nos desvãos do pesadelo,
onde a justiça está nua,
o Tempo espreita das trevas
e em teu beijo se insinua.
Em transtornos e ansiedade,
nossa vida esvai-se a esmo
e o Tempo há de impor-se a todos
amanhã ou hoje mesmo.
Neva em muitos vales verdes
e o Tempo reduz a nada
o arco que o mergulhador
descreve e a dança ensaiada.
Põe a mão até o pulso
dentro da água, na bacia,
pondera, ao fitar-lhe o fundo,
que tua vida foi vazia.
Desertos gemem na cama,
o armário acolhe o glaciar,
e a chávena leva à Terra
dos Mortos, ao se rachar.
Lá mendigo é perdulário
e o Gigante agrada a João,
anjinhos rugem ferozes,
Mariazinha dá no chão.
Olha bem, olha no espelho,
olha cheio de pesar:
viver é uma bênção, mesmo
que não possas abençoar.
Fica à janela conforme
ferve o choro assustador;
ama o próximo traiçoeiro
com teu coração traidor.”
Caía a noite, o casal
fora embora, a litania
dos mil relógios cessara
e, profundo, o rio corria.
As I walked out one evening,
Walking down Bristol Street,
The crowds upon the pavement
Were fields of harvest wheat.
And down by the brimming river
I heard a lover sing
Under an arch of the railway:
'Love has no ending.
'I'll love you, dear, I'll love you
Till China and Africa meet,
And the river jumps over the mountain
And the salmon sing in the street,
'I'll love you till the ocean
Is folded and hung up to dry
And the seven stars go squawking
Like geese about the sky.
'The years shall run like rabbits,
For in my arms I hold
The Flower of the Ages,
And the first love of the world.'
But all the clocks in the city
Began to whirr and chime:
'O let not Time deceive you,
You cannot conquer Time.
'In the burrows of the Nightmare
Where Justice naked is,
Time watches from the shadow
And coughs when you would kiss.
'In headaches and in worry
Vaguely life leaks away,
And Time will have his fancy
To-morrow or to-day.
'Into many a green valley
Drifts the appalling snow;
Time breaks the threaded dances
And the diver's brilliant bow.
'O plunge your hands in water,
Plunge them in up to the wrist;
Stare, stare in the basin
And wonder what you've missed.
'The glacier knocks in the cupboard,
The desert sighs in the bed,
And the crack in the tea-cup opens
A lane to the land of the dead.
'Where the beggars raffle the banknotes
And the Giant is enchanting to Jack,
And the Lily-white Boy is a Roarer,
And Jill goes down on her back.
'O look, look in the mirror,
O look in your distress:
Life remains a blessing
Although you cannot bless.
'O stand, stand at the window
As the tears scald and start;
You shall love your crooked neighbour
With your crooked heart.'
It was late, late in the evening,
The lovers they were gone;
The clocks had ceased their chiming,
And the deep river ran on.
Original:
AUDEN, W.H. Selected poems. London: Faber & Faber, 1979.
20.12.09
Haroldo de Campos: "horácio contra horácio"
Haroldo de Campos – que no entanto não só admirava a Ode III.XXX, mas também a traduziu – prefere supor, ao menos no poema "horácio contra horácio", uma contradição entre o carpe diem e a aspiração da Ode III.XXX. Reconheço tratar-se de uma interpretação perfeitamente legítima, mas, para mim, o que em última análise justifica sua adoção é exatamente o fato de ter resultado nesse magnífico poema:
horácio contra horácio
ergui mais do que o bronze ou que a pirâmide
ao tempo resistente um monumento
mas gloria-se em vão quem sobre o tempo
elusivo pensou cantar vitória:
não só a estátua de metal corrói-se
também a letra os versos a memória
— quem nunca soube os cantos dos hititas
ou dos etruscos devassou o arcano?
o tempo não se move ou se comove
ao sabor dos humanos vanilóquios —
rosas e vinho — vamos! — celebremos
o instante       a ruína       a desmemória
CAMPOS, Haroldo de. Crisantempo: No espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 2004.
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Poema
18.12.09
Ainda sobre as odes de Horácio
Na Ode III.XXX de Horácio, postada na segunda-feira, dia 15, o poeta diz que seus poemas, inclusive, é claro, essa ode mesma, não serão destruídos pela fuga dos tempos.
Já na Ode I.XI, que postei em 18/05/2009, e que é a origem do conceito de “carpe diem” (“colhe o dia”), o eu lírico recomenda à sua amante, Leucônoe: “Colhe o dia, minimamente crédula no porvir”.
Ou seja, enquanto em III.XXX ele fala do futuro dos seus poemas, em I.XI ele recomenda ignorar o futuro. Que houvesse uma contradição aqui não seria nenhum problema: um poema pode contradizer o outro, sem que nenhum dos dois sofra o menor arranhão. Se ambos forem bons, então, ao ler o primeiro, concordamos inteiramente com ele; ao ler o segundo, é com este que concordamos inteiramente, sem deixar de continuar a concordar com o primeiro. Ambos podem ser profundamente verdadeiros ou reveladores. Um poema é capaz se contradizer a si próprio e ser uma obra prima: ele pode até ter que se contradizer para vir a ser uma obra prima.
De todo modo, não sei sequer se essas duas odes de Horácio realmente se contradizem. Penso que a concepção da poesia que preside a Ode III.XXX é que, dado que os grandes poemas valem por si, eles são inteiramente indiferentes às contingências do tempo. Em princípio, portanto, não haverá tempo em que já não valham. O que interessa é que eles sempre merecem existir agora: seja quando for agora. Apreciá-los é sempre colher o dia: carpere diem. No fundo, portanto, parece-me não haver contradição entre essas duas odes. Algo nesse sentido manifesta-se no meu poema “História”, do livro “A cidade e os livros”, que se refere diretamente à ode XXX.:
[...]
Tudo que há no mundo some:
Babilônia, Tebas, Acra.
Que o mais impecável verso
breve afunda feito o resto
(embora mais lentamente
que o bronze, porque mais leve)
sabe o poeta, e não o ignora
ao querê-lo eterno agora.
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Poesia
16.12.09
Sobre a Ode de Horácio postada ontem
A ode de Horácio que postei ontem é, com razão, considerado um dos maiores poemas líricos de todos os tempos. Horácio diz que seus poemas durarão mais que as pirâmides do Egito e que ele crescerá no louvor dos vindouros. A segunda parte já sabemos ser verdadeira, de modo que, enquanto houver civilização, então, ainda que a erosão causada pela água e pela chuva tenha destruído as pirâmides, as Odes de Horácio – inclusive esta – continuarão de pé. E a verdade é que isso já se sabia na época em que esses poemas foram escritos. Pela evidência da sua deslumbrante beleza, as Odes desde sempre mereceram viver eternamente.
O poema, entretanto, pode oferecer algumas dificuldades ao leitor moderno, principalmente por citar pessoas e lugares hoje esquecidos por quase todo o mundo. Pois bem, a edição (da editora Cotovia) da excelente tradução de Pedro Braga Falcão que utilizei – e que recomendo enfaticamente – é aparelhada com notas que indicam o sentido das referências mais importantes. Abaixo, reproduzo as notas referentes à ode III.XXX. Os números à direita correspondem aos versos em que elas ocorrem.
3 Áquilo: Vento do norte.
7 Libitina: Deusa romana que assistia às cerimónias funerárias.
9 Capitólio.. O Capitólio é, para os Romanos, o símbolo da eternidade de Roma (cf. Vergílio, Eneida IX. 448 e s.): enquanto estiver de pé, Roma sobreviverá. A "Virgem" é a vestal que sobe ao Capitólio para orar pelo bem da cidade; está em silêncio devido à sua solene tarefa.
10 Áufido: O maior rio da Apúlia (actualmente o rio Ofanto), região onde Horácio nasceu. O poeta subtilmente vaticina que na sua terra será para sempre celebrado,
11 Dauno: O mítico fundador da Dáunia (cf. I. 22. 13, n.), mais uma referência à terra natal de Horácio. O rei é "pobre em água" devido à aridez e secura da região.
13 O Primeiro: Horácio foi de facto (exceptuando dois carmina de Catulo, escritos no metro sáfico, nomeadamente o 11 e o 51) o primeiro poeta latino a escrever sistematicamente nos metros da lírica grega eólia, representada por Safo e por Alceu.
16 Melpómene: Esta musa foi por Horácio associada à poesia lírica (cf. I. 24. 3), e não à tragédia, como é costume.
O poema, entretanto, pode oferecer algumas dificuldades ao leitor moderno, principalmente por citar pessoas e lugares hoje esquecidos por quase todo o mundo. Pois bem, a edição (da editora Cotovia) da excelente tradução de Pedro Braga Falcão que utilizei – e que recomendo enfaticamente – é aparelhada com notas que indicam o sentido das referências mais importantes. Abaixo, reproduzo as notas referentes à ode III.XXX. Os números à direita correspondem aos versos em que elas ocorrem.
3 Áquilo: Vento do norte.
7 Libitina: Deusa romana que assistia às cerimónias funerárias.
9 Capitólio.. O Capitólio é, para os Romanos, o símbolo da eternidade de Roma (cf. Vergílio, Eneida IX. 448 e s.): enquanto estiver de pé, Roma sobreviverá. A "Virgem" é a vestal que sobe ao Capitólio para orar pelo bem da cidade; está em silêncio devido à sua solene tarefa.
10 Áufido: O maior rio da Apúlia (actualmente o rio Ofanto), região onde Horácio nasceu. O poeta subtilmente vaticina que na sua terra será para sempre celebrado,
11 Dauno: O mítico fundador da Dáunia (cf. I. 22. 13, n.), mais uma referência à terra natal de Horácio. O rei é "pobre em água" devido à aridez e secura da região.
13 O Primeiro: Horácio foi de facto (exceptuando dois carmina de Catulo, escritos no metro sáfico, nomeadamente o 11 e o 51) o primeiro poeta latino a escrever sistematicamente nos metros da lírica grega eólia, representada por Safo e por Alceu.
16 Melpómene: Esta musa foi por Horácio associada à poesia lírica (cf. I. 24. 3), e não à tragédia, como é costume.
15.12.09
Horácio: Ode XXX do livro III: traduzida por Pedro Braga Falcão
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