22.4.14

Marcelo Diniz: "Litorânea"






Litorânea

O mar respira no litoral,
um pulmão que não é meu
ouço inchar-se na areia,
derramar-se, devolvendo-se,
perigoso chamado: — você
não tem história e, ainda
que tivesse, nada é seu
nesta cidade, números,
cifras, senhas sem milagre,
nada é seu, muito menos
este corpo que se banha
e se encanta com as sílabas
incontáveis de um murmúrio
que espera seu retorno
com eterna paciência.



DINIZ, Marcelo. Cosmologia. Rio de Janeiro: 7Letras, 2004.

Luís Miguel Nava: "Paixão"






Paixão

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais longínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.



NAVA, Luís Miguel. "Paixão". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Dom Quixote, 2005.

18.4.14

Rose Ausländer: "Raum" / "Espaço": trad. Antonio Cicero




Espaço


Ainda há espaço

para um poema


Ainda é o poema

um espaço


Onde se pode respirar



Raum


Noch ist Raum

für ein Gedicht


Noch ist das Gedicht

ein Raum


Wo man atmen kann




AUSLÄNDER, Rose. Gedichte. Duisburg: Gilles und Francke, 1976.

15.4.14

João Cabral de Melo Neto: "A rima..."






A rima é algo necessário. Valéry me convenceu de que, para se criar algo, é necessário um esforço. Um obstáculo diante do ser o obriga a muito mais esforço e faz com que ele atinja o seu extremo. Para mim, a rima é uma necessidade que precisa se impor.



MELO NETO, João Cabral de. In: ATHAYDE, Félix de. Ideias fixas de João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: FBN - UMC - Nova Fronteira, 1998.

13.4.14

Antonio Cicero: "Desejo"





Desejo

Só o desejo não passa
e só deseja o que passa
e passo meu tempo inteiro
enfrentando um só problema:
ao menos no meu poema
agarrar o passageiro.



CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

10.4.14

Alex Varella: "A invenção do nome"




 A invenção do nome 
 
 
 
Quando criança, achava bonito. Tinha certa imponência.
 
Alex Vítor Pessoa Varella, o meu nome.
 
“Alex”, diziam em casa, era homenagem ao doutor Alexis Carrel,  médico russo
 
 ( ou seria francês?), autor de “O homem, Esse Desconhecido”.
 
 Para os incrédulos, tínhamos um livro do tal russo, na biblioteca de meu pai.
 
Alex era nome raro de botar numa criança e requeria justificação.
 
“Vítor”, não havia dúvidas, era uma escolha puramente sonora de meu pai orador
 
e compositor de sonetos, que promovia torneios literários e saraus em casa,
 
misturados a sessões espíritas de desmaterialização.
 
Como “Pessoa”, o poeta rosa-cruz, meu mais notável antecessor,
 
espero que também me façam um busto ( que já estou a merecer! ) como aquele da Brasileira, no Chiado, em Lisboa, mas diferentemente daquele, que mude de lugar a cada dia, como a identidade do parente poeta.
 
Quanto à herança do romântico, o Fagundes (Varella),
 
Nem morrer de tuberculose, nem acabar nome de rua em Niterói!
 
Os deuses vêm me visitar. E eu os recebo a beira mar.
 
 

VARELLA, Alex. "A invenção do nome". Inédito.

7.4.14

William Shakespeare: "Sonnet 56" / "Soneto 56": trad. Adriano Nunes





Sonnet 56

Sweet love, renew thy force; be it not said
Thy edge should blunter be than appetite,
Which but today by feeding is allay'd,
Tomorrow sharpen'd in his former might:
So, love, be thou; although today thou fill
Thy hungry eyes even till they wink with fullness,
Tomorrow see again, and do not kill
The spirit of love with a perpetual dullness.
Let this sad interim like the ocean be
Which parts the shore, where two contracted new
Come daily to the banks, that, when they see
Return of love, more blest may be the view;
Else call it winter, which being full of care
Makes summer's welcome thrice more wish'd, more rare.


SHAKESPEARE, William. The sonnets and A Lover's Complaint. Edited by John Kerrigan. London: Penguin Classics, 2009.



Soneto 56

Doce amor, renova-te; que não seja dito
Ser mais cego teu gume que teu apetite,
Que está saciado por ter hoje comido,
Mas amanhã co' antiga força está em riste.
Assim, amor, sê tu; embora bem se fartem
A piscar, plenos, teus olhares esfaimados,
Amanhã enxerguem novamente, e não matem
O espírito do amor com um perpétuo enfado.
Deixa este triste ínterim como o mar ser
Que separa a praia, onde um nubente par
Vem à orla diariamente, e por ver
O retorno do amor, mais ditoso é o olhar.
Ou então o inverno, que cheio de cuidado
Faz o verão três vezes mais raro e almejado.


Tradução de Adriano Nunes