24.4.15

Nelson Ascher: "Manhã"





Manhã

                        "A periphrastic study in a
                         worn-out poetical fashion"
                              T.S. Eliot, "East Coker"


Tomado que eu estava pelo
trabalho a contragosto,
não sei se me causava mais
prazer ou mais desgosto
o raio que arranhava, arisco
que nem gato, o meu rosto.

Obsesso que eu estava em meio
do que fora posposto,
não sei o que me parecia
--mais anjo ou mais encosto--
o raio com que se irritava,
alérgico, o meu rosto.

Imerso que eu estava, menos
no breu que num aposto,
não sei se vinha da manhã
ou viera do sol posto,
o raio -- inseto que picava
com seu ferrão meu rosto.

Absorto que eu estava neste
período composto,
não sei nem se era já vinagre
ou era ainda mosto,
o raio tinto que a janela
filtrava no meu rosto.

E, exausto que eu estava deste
afã de que não gosto,
só sei que, dissolvendo o estado
acima em seu oposto,
o raio frio umedecera
como suor meu rosto.




ASCHER, Nelson. "Manhã". In:_____. Algo de sol. São Paulo: Ed.34, 1996.

21.4.15

Charles Baudelaire: "La muse vénale" / "A musa venal": trad. de Ivan Junqueira





VIII - A musa venal

Ó musa de minha alma, amante dos palácios,
Terás, quando janeiro desatar seus ventos,
No tédio negro dos crepúsculos nevoentos,
Uma brasa que esquente os teus dois pés violáceos?

Aquecerás teus níveos ombros sonolentos
Na luz noturna que os postigos deixam coar?
Sem um níquel na bolsa e seco o paladar,
Colherás o ouro dos cerúleos firmamentos?

Tens que, para ganhar o pão de cada dia,
Esse turíbulo agitar na sacristia,
Entoar esses Te Deum que nada têm de novo,

Ou, bufão em jejum, exibir teus encantos
E teu riso molhado de invisíveis prantos
Para desopilar o fígado do povo.



VIII. - La muse vénale

O muse de mon coeur, amante des palais,
Auras-tu, quand Janvier lâchera ses Borées,
Durant les noirs ennuis des neigeuses soirées,
Un tison pour chauffer tes deux pieds violets?

Ranimeras-tu donc tes épaules marbrées
Aux nocturnes rayons qui percent les volets?
Sentant ta bourse à sec autant que ton palais,
Récolteras-tu l'or des voûtes azurées?

Il te faut, pour gagner ton pain de chaque soir,
Comme un enfant de choeur, jouer de l'encensoir,
Chanter des Te Deum auxquels tu ne crois guère,

Ou, saltimbanque à jeun, étaler tes appas
Et ton rire trempé de pleurs qu'on ne voit pas,
Pour faire épanouir la rate du vulgaire.



BAUDELAIRE, Charles. "La muse vénale" / "A musa venal". In:_____. As flores do mal. Trad. de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

19.4.15

Jaime Gil de Biedma: "La novela de un joven pobre" / "A novela de um jovem pobre": trad. de José Bento





O romance de um rapaz pobre

Chamava-se Pacífico,
Pacífico Ricaport,
de Santa Rita em Pampanga,
no centro de Luzón,

e ainda lhe restava
leve sotaque pampanguense
quando se impacientava
e nos momentos ternos,

precisamente ao recordar,
compadecido de si mesmo,
nos seus anos da capital,
sua infância camponesa,

nas noites de trabalho
— para cá do bem, do mal —
de tantos balcões de bares
da rua de Isaac Peral,

porque era pobre e tão sensível,
e bonito também, o que é pior,
sobretudo nestes países
sem industrialização,

e eram vagos seus recursos
tanto como as suas histórias,
e suas ditas e desditas
e suas chamadas telefónicas.

Quantas noites a suspirar
num local já tão vazio,
veio sentar-se junto a mim
e lhe ofereci um cigarrito.

Nessas horas miseráveis
em que nos fazem companhia
até as nódoas do nosso fato,
conversávamos da vida

e o pobre lamentava-se
do que faziam já com ele:
«Têm-me corrido a pontapés
de tantos quartos de hotel...»

Onde terás ido parar,
Pacífico, meu velho amigo,
hoje três anos mais velho?
Deves ter vinte e cinco.



La novela de un joven pobre

Se llamaba Pacífico,
Pacífico Ricaport,
de Santa Rita en Pampanga,
en el centro de Luzón,

y todavía le quedaba
un ligero acento pampangueño
cuando se impacientaba
y en los momentos tiernos,

precisamente al recordar,
compadecido de sí mismo,
desde sus años de capital
su infancia de campesino,

en las noches laborables
— más acá del bien y del mal —
de las barras de los bares
de la calle de Isaac Peral,

porque era pobre y muy sensible,
y guapo además, que es peor,
sobre todo en los países
sin industralización,

y eran vagos sus medios de vida
lo mismo que sus historias,
que sus dichas y desdichas
y sus llamadas telefónicas.

Cuántas noches suspirando
en el local ya vacío,
vino a sentarse a mi lado,
y le ofrecí un cigarrillo.

En esas horas miserables
en que nos hacen compañía
hasta las manchas de nuestro traje,
hablábamos de la vida

y el pobre se lamentaba
de lo que hacían con él:
«Me han echado a patadas
de tantos cuartos de hotel...»

Adónde habrás ido a parar,
Pacífico, viejo amigo,
tres años más viejo ya?
Debes tener veinticinco.



BIEDMA, Jaime Gil de. Antologia poética. Edição bilíngue. Trad. de José Bento. Lisboa: Cotovia, 2003. 

17.4.15

Eucanaã Ferraz: "Escuta"




Visão

Seria fácil comparar as araucárias a candelabros.
Mas eu digo que elas se parecem com aquele rapaz

que, braços, cabelos, surgiu devagar
sob a luz de junho, úmida de orvalho.

Veio em minha direção.

E trazia o horizonte
nos seus ombros largos.



FERRAZ, Eucanaã. "Visão". In:_____. Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

15.4.15

Nicanor Parra: "Cambios de nombre" / "Mudanças de nome": trad. de Joana Barossi




Mudanças de nome

Aos os amantes das belas letras
Dirijo meus melhores desejos
Vou mudar o nome de algumas coisas.

Minha posição é esta:
O poeta não cumpre sua palavra
Se não muda o nome das coisas.

Por que motivo o sol
Continuará chamando-se sol?
Peço que chame Micifuz
Aquele das botas de quarenta léguas!

Meus sapatos parecem ataúdes?
Saibam que de hoje em diante
Os sapatos se chamam ataúdes.
Comuniquem, anotem e publiquem
Que os sapatos mudaram de nome:
De agora em adiante se chamam ataúdes.

Bom, a noite é longa
Todo poeta que se preza
Deve ter seu próprio dicionário
E antes que eu esqueça
Até o nome de deus é preciso mudar
Que cada um o chame como quiser:
Esse é um problema pessoal.



Cambios de nombre

A los amantes de las bellas letras 
Hago llegar mis mejores deseos 
Voy a cambiar de nombre a algunas cosas.

Mi posición es ésta: 
El poeta no cumple su palabra 
Si no cambia los nombres de las cosas.

¿Con qué razón el sol 
Ha de seguir llamándose sol? 
¡Pido que se llame Micifuz 
El de las botas de cuarenta leguas!

¿Mis zapatos parecen ataúdes? 
Sepan que desde hoy en adelante 
Los zapatos se llaman ataúdes. 
Comuníquese, anótese y publíquese 
Que los zapatos han cambiado de nombre: 
Desde ahora se llaman ataúdes.

Bueno, la noche es larga 
Todo poeta que se estime a sí mismo 
Debe tener su propio diccionario 
Y antes que se me olvide 
Al propio dios hay que cambiarle nombre 
Que cada cual lo llame como quiera: 
Ese es un problema personal.



PARRA,  Nicanor. "Cambios de nombre" / "Mudanças de nome". Trad. de Joana Barossi. In: Cândido. Publicação da Biblioteca Pública do Paraná. Curitiba, Março de 2015, nº 44. 

13.4.15

Frederico Barbosa: "As cidades e seus donos"




As cidades e seus donos

há cidades desconfiadas
impessoais misteriosas
recife são paulo
em que se mora por empréstimo
de aluguel de passagem
sem se sentir dono
como inquilino temporário
mas que ninguém tem

há cidades que por mistério
se entregam por inteiro
salvador rio de janeiro
em que cada morador
é proprietário verdadeiro
em que todo o povo
sente-se e afirma-se dono
em todo gesto no menor jeito



BARBOSA, Frederico. "As cidades e seus donos". In:_____. Na lata. Poesia reunida 1978-2013. São Paulo: Iluminuras, 2013.

11.4.15

Djalal ad-Din Rumi: "Sentados no palácio duas figuras" / trad. de Marco Luccesi





Djalal ad-Din Rumi

Sentados no palácio duas figuras,
são dois seres, uma alma, tu e eu.

Um canto radioso move os pássaros
quando entramos no jardim, tu e eu!

Os astros já não dançam e contemplam
a lua que formamos, tu e eu!

Entrelaçados no amor, sem tu nem eu,
livres de palavras vãs, tu e eu!

Bebem as aves do céu a água doce
de nosso amor, e rimos tu e eu!

Estranha maravilha estarmos juntos:
estou no Iraque e estás no Khorasan.



RUMI, Djalal ad-Din. "Sentados no palácio duas figuras". Trad. de Marco Lucchesi. In: LUCCHESI, Marco. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Record, 2000.