20.7.14

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Arte poética"




Arte poética

A dicção não implica estar alegre ou triste
Mas dar minha voz à veemência das coisas
E fazer do mundo exterior substância da minha mente
Como quem devora o coração do leão

Olha fita escuta
Atenta para a caçada no quarto penumbroso



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "O Búzio de Cós e outros poemas". Edição de Carlos Mendes de Sousa. In:_____. Obra poética. Alfragide: Caminho, 2011.

18.7.14

Eugénio de Andrade: "Ao fim da tarde"




Ao fim da tarde

Ninguém esperava ver o mar naquele dia
mas era o mar
que estava ali, à porta naqueles olhos.



ANDRADE, Eugénio de. "Pequeno formato". In:_____. Poemas de Eugénio de Andrade. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.  

17.7.14

Ferreira Gullar, "Falar"




Falar

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.


A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.



GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

13.7.14

João Cabral de Melo Neto: trecho de "O sim contra o sim"




O sim contra o sim

[...]
________________________

Miró sentia a mão direita
demasiado sábia
e que de saber tanto
já não podia inventar nada.

Quis então que desaprendesse
o muito que aprendera,
a fim de reencontrar
a linha ainda fresca da esquerda.

Pois que ela não pôde, ele pôs-se
a desenhar com esta
até que, se operando,
no braço direito ele a enxerta.

A esquerda (se não se é canhoto)
é mão sem habilidade:
reaprende a cada linha,
cada instante, a recomeçar-se.

Mondrian, também, da mão direita
andava desgostado;
não por ser ela sábia:
porque, sendo sábia, era fácil.

Assim, não a trocou de braço:
queria-a mais honesta
e por isso enxertou
outras mais sábias dentro dela.

Fez-se enxertar réguas, esquadros
e outros utensílios
para obrigar a mão
a abandonar todo improviso.

Assim foi que ele, à mão direita,
impôs tal disciplina:
fazer o que sabia
como se o aprendesse ainda.
______________________________

[...]


MELO NETO, João Cabral de. "Serial". In:_____. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.





10.7.14

Friedrich Hölderlin: "Menschenbeifall" / "O aplauso dos homens": trad. Manuel Bandeira




Menschenbeifall

 Ist nicht heilig mein Herz, schöneren Lebens voll,
Seit ich liebe? Warum achtet ihr mich mehr,
Da ich stolzer und wilder,
Wortereicher und leerer war?

Ach! der Menge gefällt, was auf den Marktplatz taugt,
Und es ehret der Knecht nur den Gewaltsamen;
An das Göttliche glauben
Die allein, die es selber sind.



HÖLDERLIN, Friedrich. "Gedichte". In:_____. Sämtliche Werke und Briefe. München: Carl Hanser, 1970.



O aplauso dos homens

Não trago o coração mais puro e belo e vivo
Desde que amo? Por que me afeiçoáveis mais
Quando era altivo e rude,
Palavroso e vazio?

Ah! só agrada à turba o tumulto das feiras;
Dobra-se humilde o servo ao áspero e violento.
Só creem no divino
Os que o trazem em si.



HÖLDERLIN, Friedrich. "O aplauso dos homens". Trad. Manuel Bandeira. In: BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.M

8.7.14

W.B. Yeats: "To be carved on a stone at Thoor Ballylee / "Para ser gravado numa pedra em Thoor Ballylee": trad. José Agostinho Baptista




To be carved on a stone at Thoor Ballylee

I, the poet William Yeats,
With old mill boards and sea-green slates,
And smithy work from the Gort forge,
Restored this tower for my wife George;
And may these characters remain
When all is ruin once again.



Para ser gravado numa pedra em Thoor Ballylee

Eu, o poeta William Yeats,
Com velhas tábuas de moinho e lousas verde-mar,
E ferro forjado na forja de Gort,
Restaurei esta torre para a minha esposa George;
Possam estes sinais permanecer
Quando tudo for ruínas outra vez.



YEATS, W. B. "De Michael Robartes and the dancer". In:_____. Uma antologia. Seleção e tradução de José Agostinho Baptista. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

6.7.14

Ivan Junqueira: "O poema"

O seguinte -- belíssimo -- poema abrirá a coletânea "Essa música", de Ivan Junqueira, que será lançado pela Editora Rocco em outubro. 



O poema

Não sou eu que escrevo o meu poema:
ele é que se escreve e que se pensa,
como um polvo a distender-se, lento,
no fundo das águas, entre anêmonas
que nos abismos do mar despencam.

Ele é que se escreve com a pena
da memória, do amor, do tormento,
de tudo o que aos poucos se relembra:
um rosto, uma paisagem, a intensa
pulsação da luz manhã adentro.

Ele se escreve vindo do centro
de si mesmo, sempre se contendo.
É medido, estrito, minudente,
música sem clave ou instrumentos
que se escuta entre o som e o silêncio.

As palavras com que em vão o invento
não são mais que ociosos ornamentos,
e nenhuma gala lhe acrescentam.
Seja belo ou, ao invés, horrendo,
a ele é que cabe todo o engenho,

não a mim, que apenas o contemplo
como um sonho que se sustenta
sobre o nada, quando o mito e a lenda
eram as vísceras de que o poema
se servia para ir-se escrevendo.



JUNQUEIRA, Ivan. "O poema". In:_____. O Globo. Caderno "Prosa e Verso". Rio de Janeiro, 5/7/2014.