30.1.15

Francisco Sá de Miranda: "O sol é grande, caem co'a calma as aves"





O sol é grande, caem co’a calma as aves
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
Também mudando-m’eu fiz doutras cores:
E tudo o mais renova, isto é sem cura!



MIRANDA, Francisco Sá de. "O sol é grande, caem co'a calma as aves". In:_____. Obras completas. Lisboa: Sá da Costa, 1976. Vol. I. 

27.1.15

Susana Moraes




Minha amiga queridíssima, Susana Moraes, faleceu hoje. É terrível. Nunca conheci ninguém mais admirável do que Susana. Não sei nem o que dizer, mas resolvi postar aqui a letra que, a partir de uma melodia de Adriana Calcanhotto, fiz e dediquei a ela:



INVERNO
                                                         Para Suzana Morais

No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir

de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.

Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar.



                      Susana e eu, não me lembro quando

24.1.15

Salvatore Quasimodo: "Ed è subito sera" / "E eis que o dia se encerra": trad. Nelson Ascher





Ed è subito sera

Ognuno sta solo sul cuor della terra
trafitto da un raggio di Sole:
ed è subito sera.




QUASIMODO, Salvatore. Tutte le poesie. Milano: Mondadori, 1969.



E eis que o dia se encerra

Cada qual se acha o centro e está só sobre a Terra
crivado de um raio de sol:
e eis que o dia se encerra.




Tradução: ASCHER, Nelson

22.1.15

Basílio da Gama: "A uma senhora"




A uma senhora

Já, Marfísia cruel, me não maltrata
Saber que usas comigo de cautelas,
Que inda te espero ver, por causa delas,
Arrependida de ter sido ingrata.

Com o tempo, que tudo desbarata,
Teus olhos deixarão de ser estrelas;
Verás murchar no rosto as faces belas,
E as tranças de ouro converter-se em prata:

Pois se sabes que a tua formosura
Por força há de sofrer da idade os danos,
Por que me negas hoje esta ventura?

Guarda para seu tempo os desenganos,
Gozemo-nos agora, enquanto dura,
Já que dura tão pouco a flor dos anos.



GAMA, Basílio da. "A uma senhora". In: CAMPOS, Paulo Mendes. Forma e expressão do soneto. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, s.d.

20.1.15

Olavo Bilac: "Música brasileira"




Música brasileira

Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.

És samba e jongo, chiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.



BILAC, Olavo. "Música brasileira". In: BANDEIRA, Manuel. Apresentação da poesia brasileira. São Paulo: Cosacnaify, 2009.

17.1.15

Giuseppe Ungaretti: "Universo" / "Universo": trad. de Sérgio Wax




Universo
                   Devetachi il 24 agosto 1916

Col mare
mi sono fatto
una bara
di freschezza




Universo
                   Devetachi, 24 de agosto 1916  

Com o mar
me fiz
um fresco
ataúde



UNGARETTI, Giuseppe. A alegria / L'allegria. Trad. Sérgio Wax. Belém: CEJUP, 1992.

15.1.15

Eugenio Montejo: "La poesía" / "A poesia": trad. Adriano Nunes




A poesia

A poesia cruza a terra sozinha,
apóia sua voz no pesar do mundo
e nada pede nem sequer palavras.

Chega de longe e sem hora, nunca avisa;
Possui a chave da porta.
Ao entrar sempre se detém a fitar-nos.
Depois abre sua mão e nos entrega
uma flor ou um cascalho, algo secreto,
mas tão intenso que o coração palpita
demasiado veloz. E despertamos.

Tradução: Adriano Nunes


La poesía

La poesía cruza la tierra sola,
apoya su voz en el dolor del mundo
y nada pide ni siquiera palabras.

Llega de lejos y sin hora, nunca avisa;
tiene la llave de la puerta.
Al entrar siempre se detiene a mirarnos.
Después abre su mano y nos entrega
una flor o un guijarro, algo secreto,
pero tan intenso que el corazón palpita
demasiado veloz. Y despertamos.


MONTEJO, Eugenio. Antologia. Caracas: Monte Avila Editores Latinoamericana, 1a ed edição, 1996.