30.10.14

Antonio Carlos Secchin: "É ele!"




É ele !

No Catumbi, montado a cavalo,
lá vai o antigo poeta
visitar o namorado.
Não leva flores, que rapazes
raro gostam de tais mimos.
Leva canções de amor e medo.
Cachoeiras de metáforas,
oceanos de anáforas, virgens a quilo.
Ao sair, deixa ao sono cego do parceiro
dois poemas, um cachimbo e um estilo.



SECCHIN, Antonio Carlos. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.

26.10.14

Manuel Bandeira: "Antologia"




Antologia

A vida
Com cada coisa em seu lugar.
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora p’ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
— A dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.



BANDEIRA, Manuel. "Estrela da tarde". In:____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

24.10.14




Em Salvador, ao orientar, na semana passada, uma oficina, a convite da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), tive a honra de merecer do LOW FI um remix de alguns poemas meus. 

O LOW FI - Processos Criativos é idealizado por Edbrass Brasil e realizado com os bambas Laura Castro e Caio Araujo, caracteriza-se como um ponto de encontro que envolve processos criativos em cinema experimental, música e literatura. Desta zona livre de troca de saberes, entre criadores de diferentes áreas, surge um espaço de fruição e de risco diversificado para o público. 

O encontro com o LOW FI ocorreu no Teatro do Goethe Institut/ICBA (Instituto Cultura Brasil-Alemanha) de Salvador.

Abaixo, um registro, que se encontra no YouTube, de um momento do encontro. 

O poema remixado nesse momento foi "Longe", do meu livro Porventura. Ei-lo:


Longe
                                    Para Suzana Moraes

A chuva forte, o resfriado
real ou fingido, e eis-me livre
da escola e solto no meu quarto,
nos lençóis, nos mares de Chipre
ou no salão de Ana Pavlovna
ou no de Alcínoo, nas cavernas
de Barabar ou sob a abóbada
de Xanadu; perplexo em Tebas
e pelas veredas ambíguas
do sertão do corpo da língua,
cada vez mais longe de escolas
e de peladas e de bolas
e de promessas de futuros,

é mesmo errático meu rumo.








22.10.14

Adonis: "União": trad.: Michel Sleiman




União

A mim se uniu o mundo, as pálpebras
do mundo revestem as minhas.
A mim, à minha liberdade se uniu o mundo
qual dos dois cria o outro?


ADONIS. Poemas. Org. e trad. Michel Sleiman. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 

19.10.14

Mario Benedetti: "Cuándo la poesia" / "Quando a poesia": trad. Antonio Cicero




Cuando la poesia

Cuando la poesía abre sus puertas
uno siente que el tiempo nos abraza
una verdad gratuita y novedosa
renueva nuestro manso alrededor

cuando la poesía abre sus puertas
todo cambia y cambiamos con el cambio
todos traemos desde nuestra infancia
uno o dos versos que son como un lema
y los guardamos en nuestra memoria
como una reserva que nos hace bien

cuando la poesía abre sus puertas
es como si cambiáramos de mundo



Quando a poesia

Quando a poesia abre suas portas
sentimos que o tempo nos abraça
uma verdade gratuita e inovadora
renova nossos mansos arredores

quando a poesia abre suas portas
tudo muda e mudamos com a mudança
todos trazemos desde nossa infância
um ou dois versos que são como um lema
e os guardamos em nossa memória
como uma reserva que nos faz bem

quando a poesia abre suas portas
é como se mudássemos de mundo



Benedetti, Mario. Biografía para encontrarme. Madrid: Santillana Ed. Generales, 2012.

16.10.14

Antonio Cicero: "De trás pra frente"




De trás pra frente

O amante,
Cabeça, tronco, membro
Eretos para o amado
Não o decifra um só instante.
Eu mesmo ainda me lembro:
O amante é devorado.
Já o amado,
Por mais ignorante e indiferente,
Soletra o seu amante
De trás pra frente.


CICERO, Antonio. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

13.10.14

A Biblioteca de Grifos de Waly Salomão




Clique para ampliar: