3.3.15

Abel Silva: "O mercado da fé"




O mercado da fé

Então
é isso
o que quer
a animada manada
dos sem neurônios:

um único deus
e zilhões
de demônios?



SILVA, Abel. "O mercado da fé". In:_____. O gosto dos dias. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

1.3.15

José Almino: "Outro dia"




Outro dia

A luz era variável e branda,
sem tirar nem por.
E o rio corria lento atrás das casas,
só faltava falar.

Sem tirar nem por.

Cedinho, as costureiras,
gente tão mansa e afável,
passavam, 
entristeciam a alva em surpresa.

E a poesia era desnecessária.





ALMINO, José: "Outro dia". Inédito.

27.2.15

Friedrich Hölderlin: "Diotima": trad. Antonio Medina Rodrigures




Diotima

Vem, dulçor da musa etérea — e para mim aplaca
   O caos do tempo, ó tu, que outrora os elementos irmanaste,
Em tons de paz do céu me suaviza a fera luta,
   Até que aos seios dos mortais se amaine a intriga,
Até que a suave, a ingente, a velha natureza dos humanos
   Brote enfim do fermentar do tempo alegre e forte.
E que à viva forma voltes, da gente aos corações sedentos!
   Voltes à mesa hospitaleira, e ao santuário voltes!
Pois que, do Espírito colmada, como em neve as flores finas,
   Vive ainda e a remirar o sol está Diotima.
Mas foi-se deste mundo o sol do Espírito, o mais belo,  
   E em caliginosa treva raivam agora tão somente os furacões.




Diotima

Komm und besänftige mir, die du einst Elemente versöhntest,
   Wonne der himmlischen Muse, das Chaos der Zeit,
Ordne den tobenden Kampf mit Friedenstönen des Himmels,
   Bis in der sterblichen Brust sich das Entzweite vereint,
Bis der Menschen alte Natur, die ruhige, große,
   Aus der gärenden Zeit mächtig und heiter sich hebt.
Kehr’ in die dürftigen Herzen des Volks, lebendige Schönheit!
   Kehr’ an den gastlichen Tisch, kehr’ in den Tempel zurück!
Denn Diotima lebt, wie die zarten Blüten im Winter,
   Reich an eigenem Geist, sucht sie die Sonne doch auch.
Aber die Sonne des Geists, die schönere Welt, ist hinunter
   Und in frostiger Nacht zanken Orkane sich nur.



HÖLDERLIN, Friedrich. "Diotima". Trad. Antonio Medina Rodrigues. In:_____. Canto do destino e outros cantos. Org. e trad. e ensaio por Antonio Medina Rodrigues. São Paulo: Ilulminuras, 1994.  



23.2.15

Fred Girauta: "Isso dá nisso"




Isso dá nisso

isso de ser uma ausência
de dizer a que não veio
de ser o único da turma
fumaça esparsa que a brasa sua
leveza sem esteio
mina d'água sob a rua

isso de ser jogado fora
ao pé da terra
pólen na areia
moita em meio à guerra
imenso mar sem beira
osso que se esfola
resto de feira

isso de ser uma quimera humana
mero pulsar de banzo
margem de afetos
fugas
desenganos

isso ainda vai dar samba
poema
ou pano pra manga.



GIRAUTA, Fred. "Isso dá nisso". In:_____. Nós. Porto Alegre: Vidráguas, 2013.

21.2.15

Domício Proença Filho: "Poética"




Poética

Poeta
profissão de risco:
tanger palavras
cúmplices do jogo
no abismo misterioso
do sentido
arisco.

Arrisco.



PROENÇA FILHO, Domício. "Poética". In:_____. O risco do jogo. São Paulo: Prumo, 2013.

19.2.15

Alex Varella: "Ode ao esquecimento"




Ode ao esquecimento

O esquecimento não pertence ao tempo.
Como a eternidade pertence, por exemplo
(o tempo eterno como uma das modalidades do tempo).

Celebro a vida sem planos, em louvor do esquecimento,
celebro a vida sem tempo:
vívida, vivida como uma ode ao esquecimento.



VARELLA, Alex. "Ode ao esquecimento". In:_____. céu em cima / mar em baixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.

17.2.15

Marco Lucchesi: "Camões"






Camões



mais


belo


sol


quando


te


pões


nos rubros


mares


de Camões




LUCCHESI, Marco. Clio. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.