1.10.14

Mário Faustino: "O mundo que venci deu-me um amor"

Agradeço a Arthur Nogueira por me ter chamado atenção para o seguinte, belo poema de Mário Faustino: 



O mundo que venci deu-me um amor

O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória...




FAUSTINO, Mário. Poesia de Mário Faustino. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1966

.

28.9.14

Casimiro de Brito: "13"




13

A morte é uma flor que palpita
no branco da noite, um rosto antepassado
que não posso ver, um rictus terribilis
que me fascina e cega. Uma flor
distraída, pensam uns,
mas há outros que sentem o brilho
da sua navalha. Abre quando quer
o seu olho de Medusa. É
uma deusa. Acolho-me à sua sombra.
Peço ao poema que me ajude
a encontrar um sentido neste segredo
que todos bebemos
e não se esgota.





BRITO, Casimiro de. Arte de bem morrer. Lisboa: Roma Editora, 2007.

24.9.14

Paul Celan: "Die Halde" / "A ladeira": trad. João Barrento e Y.K. Centeno




A ladeira

Junto a mim vives tu, igual a mim:
como uma pedra
na face caída da noite.

Oh, amada, esta ladeira,
onde rolamos sem parar,
nós pedras,
de regato em regato.
E cada vez mais redondas.
Mais iguais. Mais estranhas.

Oh, este olho embriagado,
que por aqui vagueia como nós
e que às vezes
com espanto nos vê unidos.



Die Halde                                                                                                    

Neben mir lebst du, gleich mir:
als ein Stein
in der eingesunkenen Wange der Nacht.

O diese Halde, Geliebte,
wo wir pausenlos rollen,
wir Steine,
von Rinnsal zu Rinnsal.
Runder von Mal zu Mal.
Ähnlicher. Fremder.

O dieses trunkene Aug,
das hier umherirrt wie wir
und uns zuweilen
staunend in eins schaut.



CELAN, Paul. "De limiar em limiar" / "Von Schwelle zu Schwelle". In:_____. Sete rosas mais tarde. Antologia poética. Seleção, tradução e introdução de João Barrento e Y.K. Centeno. Lisboa: Cotovia, 1996.


21.9.14

Luís de Camões: "Os bons sempre vi passar"




Esparsa sua ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais m’espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assi que só para mim
Anda o mundo concertado.



CAMÕES, Luís de. "De cuidados rodeado". In:_____. Lírica completa I. Vila da Maia: Imprensa Nacional, 1980.

19.9.14

W.B. Lemos: "Desdito"




Desdito

Errabundo. Tão somente
Desocupado habitué das ruas
de qualquer lugar desmundo.

Desconheço seus nomes,
elas não os têm, sequer destino.
Têm só o que são: ruas.

Errante feito em transe,
posso apenas mal-vagar-me
pelo sem-mapa e advir.



LEMOS, W.B. Rasga-mortalha. Poemas dos outros. Rio de Janeiro: Circuito, 2014.

16.9.14

Octavio Paz: "Juventud" / "Juventude": trad. Antonio Cicero




          Juventude

o salto da onda
                       mais branca
cada hora
               mais verde
cada dia
             mais jovem
a morte



          Juventud

El salto de la ola
                        más blanca
cada hora
               más verde
cada día
             más joven
la muerte



PAZ, Octavio. "Ladera Este". In:_____. Lo mejor de Octavio Paz. Barcelona: Siex Barral, 1998.

15.9.14

Antonio Cicero em "O que é poesia?"



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