11.2.16

"Quando você é Negro, você é Negro"



Um querido amigo encontrou na Internet um poema anônimo, com a informação de que havia sido "escrito por um homem negro do Texas, dotado de soberbo senso de humor". Estranhamente, o poema estava escrito em francês. Traduzi-o para português. Clique nas seguintes páginas, para ampliá-las:




9.2.16

Gerard Manley Hopkins: "Repeat that, repeat" / "Ecoa isso, ecoa": trad. Augusto de Campos





Ecoa isso, ecoa

Ecoa isso, ecoa,
Cuco, ave, abre as fontes-ouvidos, coração-nascentes, suavemente
          voa
Num revôo, um rebôo, uma canção
De troncos trincados e buracos do chão, oco oco oco chão:
Toda a paisagem nasce de súbito a um som.





Repeat that, repeat

Repeat that, repeat,
Cuckoo, bird, and open ear wells, heart-springs, delightfully sweet,
With a ballad, with a ballad, a rebound
Off trundled timber and scoops of the hillside ground, hollow hollow
          hollow ground:
The whole landscape flushes on a sudden at a sound.




HOPKINS, Gerard Manley. "Repeat that, repeat" / "Ecoa isso, ecoa". Trad. de Augusto de Campos. In:_____. CAMPOS, Augusto de. Hopkins: a beleza difícil. São Paulo: Perspectiva, 1997.

6.2.16

Jorge de Sena: "Suma Teológica"





Suma Teológica

Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram
navios no alto mar, quando nasci.

Nada mudou. Continuaram as guerras;
continuou a subir o preço do pão;
continuaram os poetas, uma vez por outra,
a perguntar por ti.

É certo que, então, imensa gente
envelheceu instantânea e misteriosamente.

Mas até isso, meu amor, se não sabe ainda
se foi por minha causa,
se por causa de outros que terão nascido
ao mesmo tempo que eu.




SENA, Jorge de. "Suma Teológica". In:_____. Coroa da terra. Porto: Lello & Irmão, 1946

3.2.16

André Luiz Pinto: "Prazer, esse sou eu"




Prazer, esse sou eu
filho de doméstica
numa época em que
patrões cismavam
em chamar de filhas
as mucamas. Eu
criado numa mansão
da Barra, obrigado a amar
patrões como avós
sem direito de herança.
Uma coisa aprendi:
a ler livros e a me irritar
com facilidade – lá, onde
o sinal está vermelho
e sempre acabo errando
a baliza – onde ninguém
divide nada, quando
até quem te chamou de sobrinho
diz um dia: a casa é nossa
deves partir. Tá bom, disse.
Só me dá duas semanas”



PINTO, André Luiz. "Prazer, esse sou eu". In:_____. Mas valia. Rio de Janeiro: Megamini, 2016.

2.2.16

Geraldo Carneiro: "poesia épica"




poesia épica

às vezes, inimigo de mim mesmo,
lanço-me às feras, queimo meus navios,
declaro guerra a Troia ou a Cartago,
e acabo sempre por amor vencido



CARNEIRO, Geraldo. "poesia épica". In:_____. Subúrbios da galáxia: antologia poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

31.1.16

Eucanaã Ferraz: "Aqueles"




Aqueles


Acreditavam que era possível fazer a beleza.
Acreditavam na beleza e no fazer.

Resolveram emendar o que restava
partido
entre humanos e o divino.

Diziam deuses diziam natureza disseram espada
mas era só a beleza o que sentiam.

Trocavam o bem pelo belo.
Perderam-se de tudo e aqui
estamos.




FERRAZ, Eucanaã. "Aqueles". In:_____. Trenitalia. Rio de Janeiro: Megamini, 2016

28.1.16

Antonio Cicero: "Inverno" / "L'Hiver": trad. de François Olègue

Hoje tive a grata surpresa de ver uma letra de música minha, Inverno -- que compus para uma melodia de Adriana Calcanhotto -- traduzida para o francês por François Olègue. Ei-la:



L'Hiver

                                              à Suzana Morais

Le jour où mon bonheur battait son plein,
je vis un avion,
réfléchi dans ton regard, qui s’envolait.
Et depuis lors… sait-on ?
On se promène le long du canal
et l’on écrit de longues lettres sans dessein,
tandis que l’hiver au Leblon
est presque glacial.
J’ai quelque chose encore à comprendre : où
précisément j’abandonnai, ce jour-là, ce lion
que je montais toujours ?
J’oubliai, par ailleurs, que le sort
ne m’acceptait que seul,
privé de toute amarre, exempt de tout remords ;
un bateau ivre qui dérive
sens dessus dessous.
Mais un je ne sais quoi
rappelle insistant
que pour nous deux la terre se joignit aux cieux,
juste un instant,
à l’heure où s’éteignait, là-bas à l’occident, le jour.



CICERO, Antonio. “Inverno” / “L’hiver”. In OLÈGUE, François. “Antipodes poétiques (3) - poètes brésiliens traduits par François Olègue”. RAL,M. Revue d’art et de littérature, musique, http://www.lechasseurabstrait.com/revue/spip.php?article11675, 17/01/2016.



Inverno

                                                   a Suzana Moraes

 No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir
 de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.
Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só,
sem amarras, barco embriagado ao mar
 Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar.



CICERO, Antonio. "Inverno". In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.